Investigação – Cap. I
(Bucareste, Romênia.)
─ Fora de questão! – Walter parecia inatingível. Sentado do outro lado da mesa, meu parceiro de investigação sempre se borrava quando o assunto era assassinato.
─ O que foi? Está com medo de novo? – Debruço-me na mesa abaixando os papéis que Walter lia cuidadosamente ─ Vamos lá meu velho! Você já tem quase 30 anos de experiência e está com mais medo que um novato que acabou de entrar na corporação? Cadê seu espírito de detetive homem?
Walter mantinha os olhos nos meus, olhos sérios e cansados. Eu me pergunto se ele dorme mais de três horas por dia...
─ Escute Timothy, vou dizer isso uma única vez e espero que você entenda... – Ele fez uma pausa, procurou algo no computador (algo que eu admirava em Walter era sua capacidade de estar sempre aprendendo algo novo, não era normal ver um senhor de mais de 50 anos usando a internet) e logo volta a olhar para mim. Sua postura impecável, seu olhar cansado e sua calvície mostravam o quanto ele já tinha vivido. Então ele respira fundo e prossegue ─ Estou me aposentando este mês. Faça um favor a si mesmo, ignore casos como este e chegue a uma idade propícia para a morte. Não adiante as coisas com a curiosidade e não se deixe levar pela ansiedade, como disse Salomão “tudo é vaidade”. – Ele se prepara para levantar e eu já estou relaxando os ombros.
Incrível como mesmo os velhos bacanas como Walter conseguiam ter seus pingos de chatice.
─ E Timmy... – Ele volta a falar rompendo o silêncio e me dando um susto com o estrondoso som de sua voz ecoando pela sala ─ Pode afirmar que o assassino é Martin Garden. Ele matou a própria mãe por fins lucrativos, visando a fortuna que a senhora Garden recebera do pai que faleceu no mês anterior. É bem clichê, mas há pessoas que não pensam. As provas estão nas contradições do próprio Martin. Basta rever os depoimentos e se você for mesmo bom como diz, encontrará o fim do caso. – Suas palavras me pegam de surpresa, e antes mesmo que eu possa agradecer ele sorri e acena com a cabeça. Ele sempre soube que eu não desistiria, eu estava no ramo apenas para aquele tipo de caso. Já ele, imagino que só não quisesse se intrometer por ser caso de família.
Desde criança eu fui fascinado por investigação.
Fui chamado para um curso com 12 anos, quando encontrei o assassino que matou meus pais. Cresci com uma tia que quase nunca me deixava em paz, mas nem por isso desisti. E agora que eu tinha o emprego que queria, não seria um velho que me colocaria medo. Eu estava ali ciente de todos os riscos. Todos os possíveis.
─ Te vejo amanhã. – Foram as últimas palavras que ouvi de Walter naquele dia.
Às 17h a chuva já era intensa.
─ Parece que vou passar mais uma noite por aqui... – Eu resmungava comigo mesmo já enchendo uma caneca de café quente e amargo.
Minha casa ficava a duas horas do escritório, pegar um taxi àquela hora era quase impossível, então eu ficava no trabalho adiantando o que podia até a chuva passar ou até o fim do expediente do dia seguinte.
A vida de solteiro me trazia muitas vantagens, uma delas era que eu não precisava me preocupar por não me preocupar se alguém estaria preocupado comigo...
Tudo se torna muito mais simples quando você pode fazer tudo que quer sem intromissões, mas infelizmente, não é sempre assim.
Eu não tinha uma namorada, mas tinha uma vizinha. Tinha uma tia doente e um primo perturbado. E dentre os três, eu ainda não conseguia distinguir qual era pior.
─Hm... Perda total de sangue? Mutilação... – Sussurro surpreso ao ver pela primeira vez uma morte tão vagamente explicada.
Barth, o deus dos mortos, nunca deixava falhas. Sem dúvidas, eu precisava dar uma olhada naquele monte de papéis.
─ Marx Williams. – Eu tinha certeza que já tinha ouvido falar sobre aquele nome. Tomo um longo gole ao perceber que a noite estava apenas começando.
O relógio marcava dez minutos para as onze e eu ainda tentava juntar pedaços. Ainda haviam interrogatórios a serem feitos, possíveis testemunhas a serem encontradas, e toda uma família a ser ouvida. Eu teria uma semana cheia.
Eu só não entendia, por que aquele caso tinha vindo parar aqui, nesse escritório, se havia outro muito mais próximo à cena do crime, e por que só chegara quase um mês após o ocorrido.
Entre tantos detalhes eu ainda tentava me lembrar quem seria Marx Williams. Sim, eu já tinha ouvido falar daquele nome, mas minha memória me traía justo naquele momento.
─ Marx Williams... Marx... Williams... – Minha cabeça já estava pesando sobre a mesa. Eu, com certeza, estava trabalhando demais nos últimos meses. Meu médico me recomendara pelo menos oito horas de descanso por dia, mas com tantos casos, eu não podia me dar esse luxo. Meu médico... Desde quando eu não me consultava mesmo?
(cinco semanas atrás)
─ Hey Jenny! Poderia marcar uma consulta pra mim? Tenho me sentido mal novamente... – Pelo menos para algo minha vizinha servia em alguns casos.
─ Eu já disse que precisa parar de beber tanto café. É o estômago de novo? – Sempre preocupada e atenciosa, a aspirante a enfermeira já parava o que estava fazendo para me atender.
─ Não, não. Apenas marque a consulta ok?
Eu precisava de um banho e da minha cama. Isso me faria um homem novo em folha.
E lá estava eu, já na segunda etapa. Ouvindo Mozart e relaxando de olhos fechados deitado em minha macia cama.
─ Timmy! Acorda... – A voz de Jenny vinha de longe, mas ainda assim era perto o suficiente para me incomodar ao ponto de me puxar de meu repouso.
─ O que?
─ Urgente. Walter precisa de você no escritório agora. Parece que ele está indo dar uma olhada no apartamento de um suspeito. Acho que o mandado finalmente chegou.
Imediatamente levanto.
─ Marcou a consulta? – Pergunto pouco antes de pegar o guarda-chuva e a capa.
─ O doutor Williams não está mais atendendo. Mas acho que posso procurar outro médico para você.
─ Tudo bem. Faça isso.
Desde então as perdas rápidas de memória e tonturas vinham aumentando freqüentemente...
Data da morte de Marx Williams 13/02/2010
Dia em que Jenny ligou para o consultório 11/02/2010
Data da minha última consulta com o doutro Williams 14/01/2010
Tudo se encaixava agora, Marx Williams era o nome do meu doutor.
─ Xeque... – Sorrio excitado encarando as páginas com poucos dados do morto.
Agora tudo era uma questão de tempo e raciocínio.
Eu só precisava de mais informações... Eu só esperava que não fosse obra de um de seus pacientes.
Eram quase três da manhã quando meu celular fez um barulho mais alto que o ventilador, me acordando na base do susto.
─ Quem me incomoda a essa hora?
─ Seu primo... Ele está em crise de novo... – Jenny parecia desesperada do outro lado da linha.
─ Já estou indo. – Desligo o telefone e checo se está tudo em seu devido lugar.
Interessante como minha vida daria uma ótima série de livros, talvez um Best seller!
Antes de sair, uma coisa eu não poderia esquecer de forma alguma...
Uma foto da foto do homem que parecia tão diferente do doutor Williams na 3x4 colada na folha. O número do telefone residencial, o endereço e o nome da viúva, anotados em um pedaço de papel e amassado no bolso da calça jeans. Agora eu estava pronto para ir ao socorro de meu primo adotado e perturbado que esperava as piores horas para ter crise.
Àquela hora, o único meio de transporte que eu poderia encontrar para minha casa, seria o metrô, e é para o subterrâneo que me encaminho. A rua deserta não me intimidava, e eu só havia percebido isso ao sair do escritório e dar de cara com o breu e algumas luzes fracas e amareladas.
Sentado em um vagão vazio eu repassava algumas informações vagas sobre o caso do doutor.
Ele fora encontrado há quatro quarteirões de sua casa, às duas da manhã... Eu conhecia aquele lugar. Ficava próximo ao Snack Beat um lugar que já estava interditado há anos.
Além da lanchonete, só havia uma livraria e um antiquário. Que fechavam respectivamente às 21h e às 20h. Eu me perguntava o que aquele homem fora fazer ali afinal?
Comprar um livro? Talvez.
Não me parecia fazer o tipo que gostava de artigos antigos, ao contrário, pela foto me parecia alguém bem moderno. Mas as aparências enganam, então resolvo esperar pela manhã e ir pesquisar com alguém que pudesse me dar opiniões mais próximas da exatidão.
Eu ainda não havia parado pra pensar sobre aquilo, mas a morte de Williams me parecia um caso fácil demais. Eu conhecia todos os lugares citados até o momento, e por ser um antigo paciente, seria mais fácil conversar com os amigos de trabalho e familiares. Mas o que me intrigava era: por que sua morte fora tão próxima a de seu pai?
Pelo que constava no relatório, Larry Williams, pai de Marx Williams, morrera exatamente um mês antes de seu filho. Morrera de infarto fulminante, e eu poderia considerar a idéia que Marx estava por perto, mas não pode ajudar seu pai na hora de sua morte.
Mas um ótimo médico como Marx Williams, não tentaria suicídio por uma causa tão banal...
A hipótese fora descartada, ou pelo menos deixada de lado.
Uma mulher entrava no metrô às três e quarenta. Não pude deixar de me perguntar o que uma senhorita tão bem arrumada poderia estar fazendo ali àquele horário.
Não consegui evitar olhá-la de alguns em alguns segundos. Sua pele mais pálida que o comum que contrastava com seu cabelo preto longo e liso, chamava atenção. Vestindo uma calça de couro e uma jaqueta marrom de pelo de algum animal, ela parecia confortável quanto ao frio, mas algo em sua expressão estava a me incomodar.
Um calafrio me gelou no momento em que seus olhos escuros se encontraram diretamente com os meus. Aquela era uma sensação que eu não sentia desde os 10 anos, quando vi meus pais mortos em frente a minha casa, caídos na calçada, cobertos de seu próprio sangue. Medo?
─ O que está havendo dessa vez? – É a primeira coisa que pergunto ao chegar em casa.
─ Ele não quer sair da banheira desde as dez da noite. Está resmungando coisas sem sentido de novo... – Jenny parecia preocupada, mas assim como eu, já estava cansada de todo aquele drama.
E lá estava Peter. Na água gelada. Estava tremendo, tinha os lábios roxos e estava duro demais para ser puxado para fora ou até mesmo levantar sem que se quebrasse um osso.
─ Anda, vá pegar água morna... – Faço um sinal para Jenny que ia ficar tudo bem, ela parecia mais chocada que nunca com a situação, afinal, estava mesmo piorando.
Destampei o ralo para que a água gelada escorresse e abri o chuveiro para uma água pouco menos gelada entrar e contato com o corpo de Peter. Caso contrário, ele poderia sofrer um choque térmico com a água morna.
─ Tudo bem campeão? O que você está fazendo? – Tento me comunicar, mas isso nem sempre dava certo. Surpreendo-me ao vê-lo começar a mover a boca.
─ Eu... Não... – Sua voz soava fraca, quase inaudível ─ Vou... Morrer.
─ Ah, mas não vai mesmo! – Digo, percebendo que soou muito mais irritado que eu pretendia.
─ Mas... Você... – Ele virava com calma e bem devagar o rosto para me olhar. O choque de ver seus olhos tão negros e sem brilho é maior que uma descarga de 220wlts.
Antes que ele pudesse terminar a frase, Jenny já chegava com duas panelas de água em temperaturas diferentes. Uma um pouco mais fria, outra mais morna.
─ Sossega... – Sussurro para que ele fique quieto.
Após o segundo banho, ele já estava flexível. Sempre se recuperava rápido. Mesmo quando cortava os pulsos ou se mordia.
Alguns médicos diziam que era um sério distúrbio mental e o único jeito seria internando-o, mas eu não queria que ele ficasse ainda pior em uma clínica psiquiátrica em meio a tantos loucos piores que ele.
Ele se balançava para frente e para trás.
─ Tudo bem? – Pergunto agora que ele já pode falar normalmente.
─ Tudo... – Peter apenas resmungava, como sempre.
─ Por que fez isso? – Não custava nada tentar mais uma vez, mas ele nunca respondia a essa pergunta.
─ Ela não poderia me sentir se minha temperatura estivesse abaixo do nível normal. – Peter se afunda na banheira e permanece submerso enquanto eu tento entender o que ele queria dizer. Eu nunca fui bom em filosofia, talvez por isso nunca entendesse bem o modo como ele falava.
Meu raciocínio não era tão avançado.
Solto um riso abafado ao pensar em ser menos inteligente que um moleque de 17 anos.
─ Ela quem? – Eu já queria saber demais... Ele não responderia.
Mas para minha surpresa, ele apenas volta para a superfície e me lança um olhar enigmático. Seu cabelo preto molhado cai escorrido pelo rosto e seus olhos se escurecem, mais uma vez aquele calafrio... Aquela mesma sensação...
─ Quem me fez. – Sua boca se movimenta, mas não era como se ele falasse. Sua voz estava em minha mente.
Não pude evitar arregalar os olhos. Sobre quem exatamente ele estava falando?
A seqüência de imagens que se passa por minha cabeça não é das melhores; lembranças de meus pais, fotos do corpo de Marx, a jovem do metrô, os olhos frios e secos de Peter.
Sacudo a cabeça uma ou duas vezes e percebo que Peter está novamente debaixo d’água.
─ Agora você se vira. Não cai bem para um garoto de 17 anos tomar banho com um cara de 23 dentro do mesmo banheiro.
Há algum tempo eu não sentia a maciez do edredom que forrava minha cama. Há algum tempo eu não me lembrava que tinha uma cama. Nem pra que ela servia.
De qualquer forma, eu estava feliz por estar ali de novo. Banho tomado, barba feita, e agora descansaria algumas horas para parecer mais apresentável ao visitar a senhora Williams.
O dia estava ensolarado. Inesperadamente ensolarado. Mas frio como de costume. Antes mesmo das nove da manhã, eu já estava em um taxi, me dirigindo de volta ao escritório. Torcia para que Walter estivesse lá.
Walter chegava ao escritório por volta das oito. A menos que tivesse algum problema com suas filhas ou sua esposa.
Tateio o bolso para ter certeza de ainda estar com o endereço e o número de telefone dos Williams, e suspiro aliviado ao perceber que ainda estava amassado no bolso esquerdo da calça, o espaço reservado para pedaços de papel.
Na rádio tocava uma música dos Red Hot Chilli Peppers.
─ Americano?
─ Sim. – O motorista balançava disfarçadamente a cabeça com a música. Parecia gostar da banda. Era uma boa banda.
Não era de meu costume começar conversas do nada, principalmente com motoristas, mas eu estava em um dia no qual eu teria de exercer minha simpatia, então era apenas um treinamento.
─ De onde exatamente?
─ Califórnia. – As respostas pareciam todas automáticas, curtas e frias. Ele não era um homem de muitas palavras.
─ E por que deixou um lugar como aquele para vir morar em um lugar como esse? – Sorrio um sorriso torto fitando-o pelo retrovisor.
─ Gosto de lugares de onde vêm as lendas. Sabe, estamos próximos da cidade dos vampiros, já parou pra pensar quantos adolescentes fanáticos dariam suas vidas para morar por aqui? – Ele muda a estação de rádio, agora deixando em um debate sobre política ─ E engraçado que, nós mesmos, não vemos graça em morar aqui. Não é?
Eu apenas assinto com a cabeça.
─ Vim parar aqui com 18 anos. Precisava ter certeza sobre a inexistência de seres como vampiros e monstros...
─ E?
─ Virei motorista de taxi. Mesmo assim, ainda não esbarrei com ninguém mais anormal que góticos estrangeiros. – Ele sorri pela primeira vez. E eu acabo rindo junto.
─ O que você acha?
─ Não me arrependo de ter vindo para cá. É um belo lugar. Só precisa de um bom senso de humor e um pouco de imaginação. E, vampiros e monstros não existem.
Pelo resto da viagem o homem da rádio é o único que fala. E não me incomoda apenas ver as casas, lojas e prédios passando rápido do lado de fora.
Eram quase dez da manhã quando cheguei.
─ Bom dia garoto problema! – Walter não podia se quer esperar que eu me acomode.
─ Bom dia velho. Como passou a noite?
─ Melhor que você como sempre. – Foram suas últimas palavras naquela manhã.
Não éramos de conversar muito sobre nossas vidas pessoais. Muito mal falávamos sobre trabalho. Geralmente só estávamos no escritório ao mesmo tempo pela manhã ou à noite. Trabalhávamos em casos diferentes, a menos quando o caso era complicado demais. E por enquanto, o caso Williams parecia fácil demais para servir como assunto.
─ Estou indo para as bandas da fronteira, devo voltar por volta das 20h. – Eu já vestia meu casaco e arrumava minhas coisas, quando Walter me chamou em sua mesa.
─ Dê uma olhada nisso... Esse garoto foi vítima de um ataque provavelmente de gangue. Mas não há testemunhas. O corpo foi achado por um policial que patrulhava a área, ele afirmou não conhecer o garoto.
Analisando a foto, percebi que alguns tipos de ferimentos eram parecidos com os de Marx, mas não havia como ligar um acontecimento ao outro, ainda.
─ A família?
─ O pai está viajando a trabalho. A irmã mais nova estava em casa no computador e a mãe dormindo.
Walter continuava a dar informações, mas eu só queria saber mais duas coisas...
─ A que horas o corpo foi encontrado e a que horas o garoto foi morto?
─ Barth disse que o garoto pode ter sido morto aproximadamente às 23h. Mas seu corpo foi encontrado quase três da manhã.
─ De qual dia? – Com um movimento rápido abro o calendário do celular.
─ 13 de Março.
Era tudo que eu precisava saber.
─ Parece que temos um assassino em série dessa vez. – Comento com um sorriso, talvez um pouco sádico, no rosto.
─ Por Deus! O que há com essa gente? Mesmo com internet eles não têm mesmo o que fazer não é?
A cada momento a idéia ia se formando cada vez mais forte em minha mente.
Mas era apenas uma idéia. A mente era uma fonte duvidosa de informações. Então eu preferia aguardar por informações mais concretas.
Não consegui evitar certo nervosismo, era a primeira vez que eu visitava um parente de uma vítima sem a companhia de Walter.
─ Você é Helena Williams?
Uma mulher branca com grandes olhos azuis me olhava espantada. Aparentava menos de 1.60 metros e parecia ainda sofrer com algo que poderia, ou deveria ser a morte do marido. Seu cabelo loiro se enrolava no alto da cabeça em um coque mal feito de onde pendiam fiapos de cabelo, e em volta de seu corpo, um edredom parecia deixá-la mais confortável.
Eu estava tão acostumado ao frio que já não sabia ao certo quão baixa a temperatura estava.
─ Sim... – Ela apenas me olhava, esperando por uma identificação. Eu era apenas um homem estranho que batera em sua porta.
─ Oh, sim. Perdoe-me. Sou Timothy, Timothy Bottom. – Apresento-lhe o distintivo.
─ E em que posso lhe ajudar? – Agora seu olhar mudara. Parecia incomodada. Apertava contra seu corpo os braços cruzados.
─ Estou encarregado da investigação sobre a morte de seu marido... Se importaria... – Faço um gesto sugerindo que me sugerisse entrar. De imediato ela dá um salto ao lado e abre caminho para que eu entre, indicando o sofá logo à frente.
─ Aceita algo para beber? – Ouço a porta bater atrás de nós enquanto admiro a arquitetura do local. A casa era muito bem arrumada ─ Não se incomode com a bagunça, Alphonse está de viagem e desde que meu... – Ela faz uma pequena pausa passando a minha frente e parando ainda de costas quando sacode a cabeça e prossegue ─ Bem, não tenho muito ânimo para arrumar a casa.
─ Alphonse?
─ Sim, meu filho. Único. – Um toque de orgulho preencheu sua voz ao falar de seu filho.
Uma viagem em um momento como esses... Quais seriam os fins desta viagem? Não, eu não devia perguntar naquele momento, precisava pegar um pouco de confiança primeiro.
─ Então, aceita algo? – Ela volta a perguntar, largando de lado o edredom e caminhando para a cozinha, que ficava de frente para a porta, do outro lado da sala.
─ Não. Não precisa se incomodar. Só estou aqui cumprindo rotina. – Sorrio esperando que ela entenda.
Próximo ao computador, em uma prateleira de madeira presa a parede, alguns porta-retratos enfileirados continham fotos de Helena com o filho, do filho, e uma única com Marx. Ele parecia feliz abraçado a esposa.
─ Eu passei quase três anos da minha vida me consultando com o doutor Williams... – Murmurei olhando mais de perto a foto.
Helena voltava para a sala com uma xícara, talvez de chá...
─ Ele era um bom médico... Um ótimo médico... – Ela dizia entre um gole e outro. Mas não parecia muito feliz em dizer aquilo.
─ E era um bom marido? – Volto o olhar para a jovem senhora que soprava o líquido na xícara me encarando atenta.
─ Digamos que nos primeiros anos, todos são ótimos esposos. Dedicados, gentis... Mas o tempo muda as pessoas. Ou simplesmente mostra quem realmente são. – Mais um gole passava por sua garganta fazendo-a respirar fundo ─ Por que não se senta? Imagino que tenha muitas perguntas.
Helena estava certa. E parecia querer ajudar.
Comentou empolgada sobre seus primeiros anos juntos; sobre como quando e onde se conheceram, como começaram a se gostar, sobre os planos que deram e também os que não deram certo, então, sua empolgação foi desvanecendo...
─ Quando soube que eu estava grávida, tudo mudou. – Um vazio tomava conta da expressão de Helena, que já estava na quinta xícara de chá ─ Ele não passava mais que algumas horas em casa. Só se preocupava em juntar dinheiro o suficiente para nos dar uma vida confortável... Eu só nunca entendi pra que trabalhar tanto se ele já tinha dinheiro suficiente para se aposentar e comprar duas fazendas se quisesse... – Ela resmunga antes de levar novamente a xícara à boca.
De fato, aquilo nem eu mesmo poderia entender. Baseado em quanto ele recebia, ele tinha dinheiro para bancar até mais de um filho. Então, pra que ele queria tanto dinheiro?
─ Alphonse completou seus 18 anos e se formou em enfermagem. Mas no que dependesse dele, aquilo era apenas para ajudar pessoas. Sua escolha era paralela a profissão de seu pai. Ele nunca gostou de Marx. Eles nunca foram próximos.
─ Entendo... E nesse exato momento, Alphonse está...?
─ Está no Brasil. Está tirando férias no país tropical. – Ela esboça um sorriso tímido e prossegue ─ Ele merece. E ele gosta das morenas. Quem sabe ele não encontra alguma que valha a pena...
─ Só me responde mais duas perguntas?
─ Hm?
─ Alphonse tem celular?
─ Sim. – Ela tomba a cabeça para o lado, talvez tentasse entender onde eu pretendia chegar.
─ E o doutor Marx tinha algum amigo muito próximo? – Levanto batendo de leve na calça preta social como se tivesse algum farelo ou resíduo nela, mas era apenas uma mania.
─ Sem dúvidas Andy Buttercup era o único que conseguia passar mais que minutos com Marx. – Helena sacudia a cabeça negativamente enquanto uma de suas mãos tapava o rosto.
─ Também era médico?
─ Na verdade...
Eu não sabia o que mais me chocava, não ter pensado em pedir três perguntas ao invés de duas, ou ter descoberto que Andy Buttercup não era só um dos pacientes de Marx mais também seu irmão mais novo. Qualquer um sabia que não era recomendável que um médico cuidasse de pessoas da própria família, o que me leva a acreditar que Andy não era só um doente mental, como também que Marx era um mentiroso.
Saindo da casa dos Williams às 17h parto em direção à cena do crime. Pretendia chegar antes das 18h. E mesmo assim, eu nunca chegaria ao escritório às 20h como havia marcado com Walter.
O céu já escurecendo me lembrava a época em que eu morava em um apartamento por ali mesmo. Próximo ao Snack Beat. As nuvens entre os prédios, cada vez mais espessas passavam tão rápidas que eu não sabia mais quem estava em movimento, elas ou eu?
─ O Snack Beat foi reaberto? – Novamente eu estava puxando conversa com um motorista.
─ Não soube? Aquilo lá virou um Café. – Ele comenta, sem tirar os olhos da estrada.
─ Quando? – Aquela informação poderia mudar muita coisa.
─ No fim do ano passado. A inauguração foi em Dezembro.
Então eu teria de voltar ali de uma maneira ou de outra. Não havia como escapar daquele lugar e as lembranças.
O lugar tinha uma iluminação fraca.
Direcionei-me em primeiro lugar à livraria. Eu estava à procura de Maryah McQueen. A moça que encontrara o corpo.
Esperava encontrar um lugar com muitos livros sobre medicina, ciência, histórias e séries. Uma livraria normal. Um lugar onde um médico pudesse relaxar em meio a romances, ou ficção científica; estudar sobre novos métodos de tratamentos ou comprar livros que quisesse estudar mais a fundo. Mas me deparo com algo realmente intrigante.
Lendas, mitos, magia, religião; esses eram os principais assuntos dos livros daquela livraria.
O lugar inspirava temor. Suas paredes em tom lilás, um incenso fraco sendo queimado constantemente e o piso brilhante inspirava respeito.
Uma jovem com aparência de pouco mais de 15 anos lia um livro sobre meditação, sentada atrás do balcão. Mesmo concentrada no que lia, eu sabia que ela já havia me percebido.
Passeio entre algumas estantes de vários livros dos quais eu duvidava, até que a voz rouca da garota me arrepia até a alma.
─ Eu não tenho nada haver com o homem morto. Se for isso que quer saber, já sabe. Agora se não se importa, o caminho da saída é o mesmo da entrada. – Soava como se me conhecesse, e como se fosse a primeira vez que falava no dia.
─ Você é Maryah McQueen? – Ignorando toda sua pose, eu apenas começo como sempre.
─ Pra que seguir os clichês da vida? Você sabe que o assassino raramente é quem encontra o corpo. Pra que se dar o trabalho de interrogar mais uma? – Por mais nova que parecesse, a jovem gótica parecia estar sondando meus pensamentos.
Mas o que eu queria, era detalhes de como e onde estava o corpo. Eu queria saber se ouvira algum barulho estranho àquela noite, e o que fazia ainda na livraria, embora no primeiro depoimento ela houvesse afirmado estar fazendo relatórios, eu precisava ter certeza.
─ Entendi. – Ela sussurra.
Minha reação é não reagir ao vê-la se levantar e vir em minha direção. Seu vestido bege se destacava no local onde tudo tinha cores de tons escuros.
─ Bege é um branco escurecido, não acha? – A pequena jovem de pouco mais de um metro e meio passava por mim direto a uma porta que levava a algum lugar nos fundos. Como ela conseguia fazer aquilo? Era realmente observadora?
─ Se quer alguma ajuda, é só isso que posso lhe oferecer... – Maryah passa pela porta e volta minutos depois com um livro grosso aberto nas duas mãos, uma adaga prateada era equilibrada no livro.
─ Estava ao lado do morto. – Ela aponta com a cabeça para a adaga ─ Sei que não é certo mexer na cena do crime, mas isso não fazia parte da cena.
A adaga tinha rubi e safiras adornando-a, e parecia bem afiada. E no livro, uma ilustração perfeita da adaga se destacava na folha velha e amarelada, mas o livro estava em algo parecido com latim, então eu não conseguiria ler nem que o pegasse emprestado.
─ Esta não é uma adaga comum. – Ela começa, mas eu não queria ouvir meia hora de ladainha sobre coisas místicas.
─ Claro que não. Isso estava ao lado do morto e pode ter sido a arma do crime. – Interrompi-a.
─ Impossível. Os ferimentos não coincidem com cortes ou perfurações. – Mas ela continuava intacta. Eu já me perguntava quantos anos aquela garota tinha ─ E além do mais... – Ela pousa o livro em uma mesa próxima e pega cuidadosamente a adaga, seus movimentos sugeriam uma coisa arriscada, e antes que eu pudesse detê-la ela estava forçando a ponta da adaga contra a palma de sua mão. Com um pequeno passo para trás, se esquivara de minha tentativa de pará-la.
─ Olhe e preste atenção... – Aos poucos a adaga penetrava sua pele, mas a garota não parecia sentir dor. Aterrorizado, vi o instrumento prateado atravessar sua mão esquerda sem muito esforço ─ Uma pessoa descrente como o senhor, estaria gritando de dor nesse momento, pois o psicológico não é preparado para tal coisa, mas alguém como eu, sempre sabe exatamente o que faz. – De uma vez ela retira a adaga, e como um truque, seu sangue voltava para sua mão e não existia corte algum.
─ Co-como? – Gaguejo. Meus olhos arregalados não respondiam mais ao meu cérebro corretamente, ou eu estava enlouquecendo.
─ A dor é algo que quase sempre vem da sua cabeça. E eu afirmo que, aquele homem sentiu muita dor ao morrer, mas não foi por falta de pensamentos positivos. – Ela sorri. Parece estar sendo irônica ─ O que o matou, foi doloroso, não foi esta adaga. Isto estava com ele, era o que o assassino queria. É uma adaga celeste. Usada por anjos para matar demônios. Apenas os demônios podem sentir a dor que esta adaga pode causar. A menos que você tenha um demônio no corpo, não sentirá nada se essa adaga lhe atravessar qualquer parte do corpo.
─ Quer tentar? – Um sorriso sarcástico tomava conta de seu rosto.
Aquilo estava absurdo demais para meu raciocínio lógico.
─ E eu posso lhe dar certeza de que sem isso, você estará um passo mais distante do assassino.
─ Espera... – Inspiro profundamente e solto o ar vagarosamente pela boca ─ Está tentando me dizer que, existem anjos e demônios e que eles agora resolveram vir fazer festinha por aqui? – A confusão estava tomando conta de toda minha mente.
─ Tire suas próprias conclusões detetive, Deus lhe deu um cérebro desenvolvido para isso e nada mais. Apenas fique com ela, certo? – Ela colocava a faca adornada cuidadosamente em minhas mãos ─ Pode ser útil. É a única coisa que posso lhe oferecer sobre o assassinato. Mas se quer algo mais concreto... – Ela faz mais uma pausa para um sorriso irônico. Por que para mim era tão difícil desvendar seus pensamentos? ─ Faça uma visita ao Café – Ela aponta pela janela para o Café que ficava bem de frente para a loja.
─ Eu vou. Obrigada.
Ainda com a adaga nas mãos eu seguia para a porta, atordoado com o que eu acabara de presenciar.
─ Espere... – Maryah vinha em minha direção com uma caixa retangular de veludo preto nas mãos ─ Use isso pra guardar. E não deixe o senhor ali do lado vê-la. Eu tenho 14.
─ O que vai pedir? – Uma garçonete me atendia poucos minutos após minha chegada. Eu estava surpreso pelo movimento do lugar.
─ Café. Preciso de café... – Resmunguei torcendo para que ela entendesse as palavras torcidas. Pareceu até engraçado pedir café em um Café.
Eu olhava pela janela aquela livraria, que de fora parecia algo tão normal que sugeria algo monótono, mas que me surpreendera mais que qualquer coisa nos últimos anos.
Ainda não entendia quem seria o “senhor ali do lado”, e também não estava conseguindo pensar em nada além de ir para casa e tomar um longo banho quente.
De repente a sensação de estar sendo vigiado me toma. Disfarçadamente olho para os lados, mas não há ninguém me olhando. Só podia ser coisa da minha imaginação.
Eu precisava ligar para Alphonse e encontrar Andy... Era só nisso que eu precisava me concentrar naquele momento.
A garçonete voltava com o café.
Uma olhadela no relógio e percebo que ainda faltava quase meia hora para 19h. Talvez eu ainda pudesse encontrar Walter saindo do escritório.
O café desceu em um gole só. E eu já estava a caminho de volta ao escritório.
As ruas escuras desta vez estavam mais movimentadas, todo tipo de pessoa passava de um lado para outro, casais sentados em mesas de Cafés que invadiam as calçadas, homens e mulheres voltando do trabalho, grupos de adolescentes que gritavam e corriam... Como dizem, estavam zoando e curtindo a vida. Sinto falta daquela época... Na verdade, talvez eu nunca tenha passado por essa “época”.
(13 anos atrás)
─ Pai! Pai! – Eu corria pela casa gritando como uma garotinha com medo de barata. Não, não era uma barata que me perseguia.
─ Pra que tanta algazarra moleque? – Papai estava no andar de cima, mas com todo o barulho, resolveu descer alguns degraus para ter certeza que só era mais uma gritaria sem fundamentos.
─ Vem ver uma coisa! Rápido! – Eu sacudia as mãos e me balançava com urgência, tanta que papai desce a escada e me segue até o quintal de casa.
─ O que houve agora? Não é mais uma das suas esquisitices é?
No quintal da casa, um cachorro agonizava. Sua cabeça pendurada por alguns pedaços de carne e pelo. Era admirável que houvesse chegado até ali antes de sua morte.
─ Ele chegou aqui tem alguns minutos, acha que podemos salvá-lo? – Abaixado próximo ao cão que já estava caído no chão, eu tentava não chorar. Era um pastor alemão lindo, parecia bem cuidado... Talvez tivesse fugido de alguma casa.
─ Impossível. Precisamos tirá-lo daqui quanto antes. – Papai voltava para dentro de casa sem mais.
Eu já havia entendido. Não seria possível ajudar o pobre cão. Mas uma coisa começava a me intrigar... Como acontecera algo daquele tipo?
─ Vamos, entre! Vá ajudar sua mãe com a casa que eu cuido disso. Não quero você mexendo com coisas mortas. – Papai falava como se o cão fosse um objeto. Como se nunca houvesse sido um ser vivo. A frieza na voz de papai congelava até o osso.
─ Ta bom... – Desanimado e com a cabeça baixa eu saía do quintal impregnado com cheiro de sangue e entrava em casa onde o cheiro da comida de mamãe me fazia lembrar que eu tinha um estômago.
Mamãe estava, como toda manhã, de frente para o fogão preparando o almoço. A melhor comida do mundo era a de mamãe.
─ O que houve Timmy? – Mamãe perguntava sem mesmo tirar os olhos das panelas.
─ Um cachorro morto no quintal.
Mamãe não pareceu esboçar expressão alguma.
─ Timmy, hoje seu pai e eu vamos sair de noite, consegue passar algumas horas sozinho em casa? – Ela agora se abaixava em minha frente para se por da minha altura.
─ Claro! Eu já sou bem grandinho não acha? – Enquanto minha pose era a de uma criança convencida de saber de tudo, mamãe só ria.
─ Então tudo bem. Você é o segundo homem da casa! – Ela bagunçava meu cabelo enquanto levantava e voltava para o fogão. ─ E agora o segundo homem da casa vai arrumar sua pequena casinha no segundo andar não é?
─ Ah mãe! Mas eu já arrumei o quarto sábado passado!
As risadas entre eu e mamãe superavam o silêncio entre eu e papai.
Mamãe e papai já estavam prontos às 18h e me davam instruções. Voltariam às 22h e nem um minuto a mais tudo que eu precisava fazer era assistir TV até as 21h e trancar a porta e fechar as janelas para ir dormir até no máximo 21h e 30min.
Missão fácil.
Mas algo deu errado.
─ Timothy! – A voz de mamãe me puxara de um sono leve. Por que ela estava me gritando?
Desci a escada escorregando pelo corrimão e corri para abrir a porta... Mas era tarde demais... Em minha mente a fotografia de mamãe e papai, caídos, ambos decapitados... Meu coração ameaçava parar, a garganta fechada não me permitia gritar e as lágrimas não vinham. Foi quando algo me acertou a cabeça. Algo forte e quente.
─ Onde eu to? – Minha cabeça doía mais que nunca, flashes de memórias chegavam a minha mente e iam embora.
─ Não se esforce você acabou de acordar. Está bem? – Uma mulher de branco, era só o que eu via a minha frente.
─ Minha cabeça dói... – Ao por a mão na cabeça percebi que estava enfaixada.
─ É uma sorte que você tenha sobrevivido. Você nasceu de novo garoto! Seu anjo da guarda é mesmo forte! – A mulher sorria tentando me animar, mas eu só queria saber onde estava e o que acontecera...
─ Cadê minha mãe? Ela esqueceu a chave... – As palavras começavam a falhar.
─ Primeiro vamos cuidar de você, depois nós vemos os detalhes...
O que ela estava falando?
─ O que aconteceu? Cadê meu pai?
─ Timothy, seus pais morreram... – Um homem alto também vestido de branco chegava tomando o lugar da moça simpática de antes. Agora eu queria a moça de volta... ─ Você tomou um tiro, e sobreviveu. Não conseguimos remover a bala, mas parece que vai ficar bem.
Aquelas palavras me atingiam com cada vez mais força. As imagens de mamãe abaixada bagunçando meu cabelo, e mamãe caída no chão sem a cabeça piscavam em minha mente.
Aquele foi o momento em que eu desisti de qualquer coisa que quisesse fazer apenas para fazer justiça. Eu já não pensava mais como uma criança de 10 anos, mas como um adulto que quer se vingar a todo custo...
Walter estava passando pela porta quando cheguei. Deu tempo de gritá-lo do outro lado da rua.
Eu não estava orgulhoso em admitir, mas eu precisava de sua ajuda.
Após contar toda a história, agradecido pelo silêncio de Walter, apenas suspiro e afundo a cabeça na mesa.
─ Tudo bem... Deixe-me ver se entendi. Marx Williams morreu dia 13 de Fevereiro, em um beco sem saída onde só havia um Café recém inaugurado, uma livraria e um antiquário. Ele morreu às 23h e foi encontrado pela recepcionista faz-tudo da livraria às 2h. Naquele dia o Café fechara às 21h o antiquário às 20h e a livraria às 22h com um intervalo de 1h para o encerramento do expediente de cada loja da rua... O assassinato também respeitou o intervalo de 1h... A esposa de Williams já não sabia quem ele era, o que ele fazia e onde ele andava há quase um ano, seu filho nunca tivera interesse em se relacionar com o pai ausente. Seu único amigo era seu irmão bastardo, que se passava por doente por algum motivo desconhecido. Williams não precisava de mais do que já tinha, porém achou que seria uma boa desculpa para passar mais tempo fora fazendo algo. A livraria da qual era cliente há tempos vendia livros sobre lendas, mitos, magia e religião, e coisas relacionadas. A jovem que encontrara o corpo começara a trabalhar no lugar poucos dias antes do assassinato. Realmente ela pode nunca ter visto Marx Williams antes. Mas, por que ela estava trabalhando em um local como aquele com apenas 14 anos? Onde está Andy? O que Alphonse sabia sobre seu pai? Impossível que ele não soubesse absolutamente nada... E o mais importante, o que exatamente Marx estava fazendo naquele lugar uma hora após o fechamento de todas as lojas? – Walter permanecia imóvel. Apenas com a mão segurando o queixo e a boca abrindo e fechando para que as palavras pudessem ser ditas.
Realmente eu ainda não havia pensado naquela pergunta... O que Marx fazia em um lugar como aquele em um horário em que não havia mais nada a ser feito?
─ Espera. – Um detalhe chega a minha mente de súbito. Ao lado do meu computador estava a caixa de veludo. ─ Isso aqui... Eu não te falei sobre isso...
Com cuidado abro a caixa e pego a adaga de prata.
─ Uma adaga celeste? – Os olhos de Walter parecem estar a ponto de explodirem, mas quem estava realmente surpreso era eu.
─ Você...
─ Isso existe mesmo? Onde conseguiu? – Walter vinha em minha direção já com as mãos estendidas para pegar a faca.
─ A garota da livraria pegou do morto. Segundo ela é impossível que tenha sido a arma do crime, mas pode ter sido a causa do assassinato... Parece que era isso que o assassino queria.
Walter alisava com cuidado a adaga, como se fosse uma criatura viva.
─ Você tem idéia do que tem em mãos? Esta pode ser a última... – Com estas palavras vindas de Walter, uma nova idéia se forma em minha mente.
─ Ao lado da livraria, fica o antiquário... Acha que ao falar “o senhor ali do lado” ela podia estar se referindo ao dono do estabelecimento? Se isso é mesmo raro... Eu preciso falar com seja quem for que esteja na direção do antiquário... Posso estar mais próximo do fim agora.
─ Timothy... – Meu nome escapa pela boca de Walter em um tom rouco que me chama a atenção ─ Isso pode realmente lhe ser útil. Esta adaga torna toda a história possivelmente...
Antes que Walter pudesse terminar, meu celular vibra em cima da mesa de madeira e logo começa a tocar. Era Jenny.
─ O que foi? – A pergunta soa bem mais irritada que eu pretendia.
─ É melhor você voltar para casa agora. – Sua voz soava urgente do outro lado da linha. Eu sempre esperava o pior das ligações de Jenny.
─ Estou a caminho.
Fecho o celular sem mais e guardo a adaga novamente.
─ Me faz um favor? – Volto a Walter.
─ Dependendo do que for...
─ Liga pra esse número, é o celular de Alphonse Williams. Diga que preciso que volte para a Romênia já.
Eu já entrava em casa esperando que Peter estivesse tendo mais uma de suas crises, ou que tia Norma estivesse piorando, ou quem sabe melhorando... Eu já não duvidava de mais nada.
As coisas estavam ficando cada vez mais complicadas no meu lado pessoal. Às vezes eu só queria poder abdicar de tudo para viver apenas trabalhando, mas isso poderia me levar para o lado de meus pais. Então eu pensava em algo melhor, como encerrar este caso e viajar para algum lugar longe daqui. Onde eu pudesse tirar férias não só do trabalho, mas da vida de Timothy Bottom.
─ Peter? Jenny? Alguém aí? – A casa estava escura, parecia estar vazia. Exceto pela luz que vinha do quartinho que Peter usava como ateliê. E era para ali onde eu estava indo.
Eu nunca havia entrado no canto sagrado de Peter. Nem mesmo sabia o que ele fazia lá dentro, se pintava, escrevia ou fazia outra coisa do tipo. Eu não conhecia suas virtudes, estava sempre ocupado demais com as investigações para ter conversas com Peter. Ele só participava da minha vida como o primo perturbado e doente mental que atrapalhava meus planos e minha carreira na maior parte das vezes. Mas, o único lugar que indicava sinal de vida naquela casa, naquele momento, era aquele ateliê. Era o único lugar aonde eu poderia encontrar alguém. Não havia outra opção se não entrar.
De qualquer forma eu estava agindo como se aquilo fosse um templo impenetrável, onde nem eu nem nenhum outro ser da minha espécie pudéssemos entrar e sair impune. Aquilo era só um quartinho de um adolescente retardado mental... E foi acreditando nisso que abri a porta e dei o primeiro passo.
─ Peter? – Chamei. Sem nenhum ruído como resposta.
─ Jenny? – Chamei outra vez. Será que aquele quarto era tão grande assim? Eu me perguntava passando por outra porta que eu não sabia que existia até aquele momento.
─ Quem ta aí? – A voz de Peter vinha do primeiro quarto. Mas já era tarde demais, eu já estava ali e já descobrira seu verdadeiro ateliê. Seriam obras de arte realmente encantadoras, se não fossem tão horripilantes. Retratos de assassinatos, mortos; sangue era tudo que você via nas telas. Eram todas tão reais que ao primeiro impacto, era possível ouvir cada grito.
─ Timothy? – Peter perguntava ao vento, sua voz cada vez mais próxima.
Ao lado esquerdo da porta, uma tela estava quase pronta. Meio descoberta, a parte a mostra, me chamou atenção. Tanto que quando dei por mim já estava descobrindo-a por completo.
O impacto foi grande. Sem duvidas era uma das mais reais.
A cena de um demônio de asas quebradas que devorava, sem dó, um homem que parecia gritar, mas não parecia tentar lutar por sua vida...
Um homem que parecia estar desistindo de tudo, e sucumbindo com a dor sem pestanejar...
Um homem que parecia estar realizado por estar morrendo de tal forma...
Um homem que parece dar um grito de alívio agora...
─ Você não devia estar aqui! – Peter grita ao meu lado.
E então percebo nos olhos do homem algo impossível de ignorar... Aquele era um homem que sem dúvidas se chamava Marx Williams.
Eu estava simplesmente sem ação. O que exatamente significava aquilo?
─ O que exatamente... Significa isso? – Eu sussurrava para mim mesmo, sem conseguir pensar em nada. A imagem apenas piscava em minha mente, como uma variação de pintura e fotografia.
Algo forte me acerta no rosto. Era o punho de Peter. Pela primeira vez na vida, eu levara um belo soco, e ao menos foi o bastante para me trazer de volta.
─ Peter! Para! – Grito pouco antes de outra vez ser acertado pela ira de meu primo (que eu já não sabia mais se deveria ser visto como perturbado).
─ Peter! – Gritei apenas mais uma vez, mas ele não parou. Dessa vez com ainda mais força, Peter me fez rodar quase 180°.
Agora eu sabia que gritar com ele, não o faria parar.
Então antes que seu próximo golpe me acertasse, e quebrasse algum dos meus dentes, Jenny o segurava pelos braços enquanto eu me restabelecia firme sobre meus pés.
─ Me solta! – Peter puxava os braços, lutando contra Jenny sem querer machucá-la.
E com apenas metade de sua força, Peter se livrara de Jenny.
─ Peter, está tudo bem. Eu não vi nada. Está tudo bem. – Eu tentava acalmá-lo com palavras, mas parecia tão impossível quanto acalmar um touro com tecidos vermelhos ─ Por que não vamos conversar na sala? Não acha uma boa idéia?
Peter não parecia estar raciocinando direito. Era como se alguém tivesse tocado seus pensamentos, como se algo estivesse penetrando lentamente em sua mente. Aquilo seria perturbador para qualquer um.
─ Conversar? Sobre o que? – Um sorriso de repente sugeria uma idéia. Uma idéia psicopata surgia em sua mente naquele momento ─ Que tal conversarmos sobre sua nova faquinha? – Aquele sorriso assustador crescia cada vez mais largo, cada vez mais sinistro... Cada vez menos Peter e mais demoníaco.
─ Espera... – Pronto para desarmar qualquer ataque, passo por Peter me surpreendendo ao não precisar de esforço para sair do cômodo e correr até a sala.
Jenny vinha ao lado de Peter, tentando acalmá-lo ou entender o motivo de duas ações.
Eu só não entendia porque
─ É isso que você quer? – Empunho a adaga que estava pousada em cima da mesa, o que sugeria que Peter havia pegado nela.
─ Não quero... Mas também não quero que fique com ela. – Agora ele estava sério. Ignorava Jenny como se ela não existisse. Para ele, ela não estava ali.
─ Tudo bem. – Abaixo a adaga segurando-a firme todo o tempo.
“A cabeça”
Uma voz sussurrava em meus ouvidos. Uma voz feminina. Doce, suave, tranqüila... Mamãe... Por um segundo parece que eu havia sussurrado aquela palavra que eu não falava há tantos anos, mas ao sacudir a cabeça, percebo que era só imaginação...
─ O que fará com ela? – A voz de Peter volta a encher o espaço vazio de som.
─ Não sei, mas vou me livrar...
“A cabeça... Rápido!”
─ Está mentindo! – Peter avança mais uma vez, mas dessa vez algo estranho acontece. Era como se uma fumaça o envolvesse. Eu me perguntava se Jenny também o via.
De repente era como se meu corpo não respondesse mais aos comandos de meu cérebro e com um único golpe, a adaga atravessa o pescoço de Peter, como se o fosse arrancar a cabeça. Mas apenas a fumaça se dissipa, levando com ela um grito infernal.
Jenny olhava assustada, esperando talvez que a cabeça de Peter caísse ao lado do corpo, mas o rapaz apenas cai ao chão, inconsciente.
Eu ainda lutava contra minhas lembranças para entender o que realmente acontecera na noite anterior, mas tudo do que eu conseguia me lembrar era acontecimentos fora de ordem, sem sentido algum.
Era sábado, Walter e eu iríamos até as cenas dos crimes. Eu me direcionaria a fronteira com a Transilvânia enquanto ele iria ao centro da cidade, nos encontraríamos no escritório às 23h.
Jenny não estava nada contente com a idéia, afinal, Peter ainda estava inconsciente. Mas eu precisava por um fim naquilo tudo quanto antes, só então eu poderia viajar um pouco e esfriar a cabeça.
Naquela tarde Alphonse me ligou, queria comentar sobre algo que descobrira pouco antes de viajar para o Brasil.
(15h de sábado. 20/03/2010)
─ Olá, Timothy Bottom? – Alguém com sotaque americano falava do outro lado da linha.
─ Sim.
─ Sou Alphonse Williams. Poderíamos conversar por telefone?
A ligação me pegara de surpresa. Mas por mim estava tudo bem. Eram apenas algumas perguntas.
─ Sim, são apenas uma ou duas perguntas. Tudo bem por você se me ajudar com meu trabalho e eu te livrar de algumas?
─ Estou de acordo. Ajudarei no que puder.
Era minha chance.
─ Começando por seus conhecimentos... O que sabe sobre seu pai?
─ Marx era um cara de sorte. Tinha uma esposa linda e atenciosa, e um filho dedicado, mas jogou tudo no lixo por estudos bestas. – Alphonse não se referia a Marx como seu pai, mas tinha seus motivos.
─ Que tipo de estudos?
─ Coisas que contradiziam totalmente o que estudara por anos e tivera êxito. Ele só estava trocando o certo pelo duvidoso. Queria algo além da ciência, além da matéria. Queria descobrir a existência de outros tipos de seres e comprová-la. – Dizia Alphonse.
─ Ele se interessava por coisas sobrenaturais?
─ Desde que nasci ele dera a desculpa de precisar trabalhar mais para sustentar a família, mas descobri pouco antes de viajar, que era tudo uma farsa. Na verdade, ele tinha um laboratório que montava desde que se casou. Ficou pronto quando minha mãe engravidou; então ele usou isso como uma desculpa qualquer. – Alphonse parou de falar por um momento, talvez estivesse fazendo algo, então prosseguiu ─ Ele estava obcecado por tudo aquilo, mal acreditei quando entrei naquele lugar.
─ Onde?
─ Não sei se conhece, mas fica próximo a uma antiga lanchonete, basicamente nos fundos dessa lanchonete. Snack Beat. Mamãe conhecera Marx naquela lanchonete.
Tudo começava a fazer sentido.
─ Uma última pergunta... Conhece alguém chamado Andy Buttercup?
O silêncio pairou por alguns segundos. Alguns longos segundos que indicaram a resposta antes mesmo das palavras.
─ Ele está residindo em Florença, Itália. O tio Andy é uma boa pessoa. Ele e Marx tiveram uma discussão sobre os estudos – Alphonse faz uma pausa como se medisse as próximas palavras ─ Eu vou ter que desligar agora. Caso precise de algo já tem meu telefone. Tudo em que eu puder ajudar, não hesite em me pedir ajuda. Faço isso por mamãe e não por Marx.
(19h de sábado. 20/03/2010)
Walter e eu estávamos de saída. Tomando caminhos opostos mais uma vez.
Naquele exato momento o antiquário estaria fechando, assim como a livraria. Era um alívio saber que a livraria estaria fechada quando eu chegasse lá. Eu apenas não queria correr o risco de encontrar aquela criatura aterrorizante de novo.
O Café só fecharia às 22h. Se o motorista for rápido, talvez eu chegue lá antes que as portas se fechem.
(21h 45min. de sábado. 20/03/2010)
Eu estava a um passo do fim. Lá estava o laboratório secreto de Marx.
Um lugar cercado por imagens de anjos, demônios, vampiros, bestas feras, fotos marcadas com riscos vermelhos ou circuladas com círculos azuis.
Prateleiras com estatuetas de madeira, prata, bronze, cristal...
Quanto exatamente Marx gastara naquilo?
Na mesa redonda ao centro da sala, pilhas de livros e uma carta aberta datada de 13/02/2010.
A carta dizia “Marx, cheguei ao Brasil hoje. Espero que meus dias aqui me rendam mais que boas férias. Quero apenas lhe pedir que não deixe mamãe sozinha por esses meses enquanto eu estiver aqui. Prometo que se fizer isso por mim, quando voltar para a Romênia eu lhe ajudo com seus estudos. Embora eu ache que isso não passa da mais pura loucura. Aqui é um lugar bonito. Estou em Curitiba, acho que é esse o nome do lugar. O clima aqui não é tão quente quanto ouvi dizer que é no Rio, mas é com certeza mais quente que aí. Espero que um dia você possa vir para cá também, relaxar um pouco e esquecer os famosos “fenômenos”. Por favor pai, não se deixe perturbar tão fácil. Escute um pouco o tio Andy, você sabe que nós só queremos o melhor para você. Estamos poupando mamãe da verdade, apenas para poupá-la de um sofrimento maior, ser trocada por criaturas inexistentes não é algo fácil para se suportar. Soube que você largou a clínica e não consigo imaginar o que fará para se sustentar agora. Eu não quero que isso seja um incentivo para suas maluquices, mas aceite essa quantia que estou lhe enviando. Pode ser de grande ajuda.
Boa sorte Marx. Realmente quero te ver bem, então se cuide e fique mais tempo em casa.
Alphonse.”
Dentro do envelope havia ainda um pacote de dinheiro.
Quisesse ou não, no fim das contas Alphonse se preocupava com o pai.
(22h 30min. de sábado. 20/03/2010)
Um calafrio.
Há quanto tempo eu não sentia aquilo?
Algo me faz gelar da cabeça aos pés enquanto eu lia um dos livros abertos na mesa.
Não havia janelas ali, então sinto o que eu não sentia desde os 10 anos; medo.
Eu lutava para manter a idéia de que tudo aquilo era psicológico.
No celular uma nova mensagem acabara de chegar.
Peter havia acordado. Segundo Jenny, ele não reconhecia nenhuma de suas pinturas, ele não se lembrava de nada. Jenny estava preocupada.
Eu devia estar saindo dali naquele exato momento, mas algo chamara minha atenção. Um livro caíra de uma estante. Um livro científico. Raridade naquele laboratório.
(23h de sábado. 20/03/2010)
O celular vibra e a melodia rompe o silêncio bruscamente.
─ Merda! Que susto... – Resmungo procurando-o no bolso.
Era Walter.
─ Achou algo? – Fora a primeira pergunta de Walter.
─ Nada. Parece que dessa vez o criminoso não vai voltar à cena do crime.
Mais uma vez, silêncio.
─ Já estou chegando. – Dizia Walter. Ao notar a hora eu me perguntava se realmente não tinha visto o tempo passar.
─ Acredita que ainda não saí do laboratório?
─ Laboratório? – Walter não sabia sobre aquilo, fora um dos detalhes que deixei lhe escapar.
─ Sim. Parece que Marx tinha esse laboratório nos fundos do Café. Ele e Andy estudavam e pesquisavam coisas realmente impressionantes aqui. Coisas que fariam qualquer um perder a noção do que é de fato real. – Comento baseando-me em minhas próprias reações. Seria um grande problema se eu não fosse total e irrevogavelmente amante da ciência exata.
Walter por exemplo, caso ele entrasse naquele local, ele jamais voltaria a ser o mesmo Walter.
─ Interessante. – E Walter parece entender isso.
─ Eu estou saindo daqui agora. Espero que Marx não se incomode se eu levar um livro comigo... - Continuo murmurando com o telefone à orelha enquanto visto minha capa e pego o livro.
─ Tem certeza que vai voltar hoje? – Walter perguntava em certo tom de preocupação.
─ Fique tranqüilo, como eu disse, o assassino não vai voltar aqui tão cedo.
─ Mas est... – A ligação caiu, cortando suas palavras ao meio.
Apago as luzes, seguindo as instruções da dona do Café que antes de fechar o estabelecimento, voltou para me dar instruções do que fazer ao sair.
Próximo à porta do laboratório estavam as chaves. A do café e a do laboratório.
Eu já estava do lado de fora, caminhando pela rua, quando aquele vulto passou bem diante de meus olhos.
“Por que você não está com a adaga?”
Uma voz conhecida invadia minha mente. Era como se eu mesmo estivesse pensando, não, era como se eu estivesse ouvindo.
“Desculpe, mas não poderei te ajudar...”
Então percebo alguém me olhando.
Da janela da livraria Maryah me encarava com uma expressão indecifrável. Seus olhos intercalavam entre mim e as grades que fechavam a rua.
“O que há? Por que estou ouvindo essa voz?” Eu me perguntava se ela além de falar podia ouvir.
“Claro que posso. Sinto muito detetive...”
Com a cabeça baixa ela vira e entra mais para fundo na loja.
Uma densa neblina começava a cobrir toda a área e quando dou por mim, já não sabia mais para que lado devesse andar.
Cada vez menos coisas era possível de se enxergar. Eu já começava a me perguntar o que diabos estava acontecendo.
─ Onde está a adaga? – Uma... Não, duas... Três vozes. Três vozes unidas em uma só falavam perto de meu ouvido. Aquilo me assustara de uma forma irracional.
─ Quem são vocês? – Viro-me para tentar notá-los, me espantando ao ver uma única silhueta.
─ Que irônico, nem na hora de sua morte você é capaz de responder ao invés de perguntar? – O sincronismo entre as duas vozes masculinas e a voz feminina estava perfeito, eu não podia acreditar que aquilo era apenas uma pessoa ─ Não acha que já se escondeu bastante em suas perguntas ao longo de toda sua vida? Por que não responde você mesmo? Por que depende tanto dos outros?
De qualquer forma eu queria que aquela coisa parasse de falar. Giro 180° e volto a andar com certeza eu chegaria a algum lugar.
─ Não há como escapar Timothy Bottom. Você sempre continuará sendo aquela criança assustada que precisava fingir ser forte. Você sempre será o fraco que não conseguiu salvar a si próprio. – Quanto mais eu me afastava, mais próxima a voz ficava de mim.
─ Cala a boca! – Não pude conter o grito.
─ Também não há como escapar da verdade. Você precisa lembrar agora, vamos lembre-se! – Duas mãos gélidas me tocam os braços, passando pelo tecido que apenas derrete facilmente ao toque.
Do que ele estava falando?
Imagens começavam a passar cada vez mais rápidas em minha mente. Parecia que tudo em minha volta explodiria. Lembranças desde quando papai me repreendera pela primeira vez por ter apanhado na escola, até o dia em que me tornei um tira e acertei alguém com um tiro. Senti novamente cada gosto amargo de cada arrependimento. Eu deveria ter seguido a carreira de físico nuclear, ou talvez arquiteto, mas por algum motivo eu me sentia mais forte com uma arma na mão. Uma arma que eu esqueci no escritório onde passei meus últimos três anos. Fugindo das minhas responsabilidades como sobrinho, como primo, como amigo... Era fugindo de meus problemas que eu me sentia mais forte. Era ouvindo as histórias trágicas dos outros que eu me sentia mais feliz.
─ Timothy Bottom, agora apenas veja... – Aquela voz agora parecia bem mais suave...
Lá estava eu, sentado em uma sala de espera com um envelope branco na mão. Era um hospital.
Um médico vinha a meu encontro e me chamava para uma sala.
O envelope era o veredicto.
E o envelope dizia que eu ia morrer.
A bala que me acertara quando eu ainda tinha 10 anos me fizera um tumor maligno no cérebro. Por isso nos últimos anos eu apresentava tantas falhas cognitivas.
─ Deveria me agradecer por isso... É uma pena que sua morte fique no anonimato. Seria uma boa chance de ser reconhecido.
Foram as últimas palavras que ouvi antes de sentir duas coisas pontiagudas perfurarem meu pescoço e me esvaziar de todo sangue. Tudo escureceu. E sem entender como, eu estava feliz.
Vaticano.
─ Então ele se foi?
─ Entendo. É uma pena, ele poderia ser útil.
─ E o menino?
─ Então deixemos que ela mesma cuide disso...
Desenrolem o tapete vermelho, aí vou eu! – Cap. II
(Boston, EUA)
Estávamos sentados no capô do mustang dele, como fazíamos todos os dias. Comendo um hambúrguer duplo e dividindo uma latinha de refrigerante. Aquela era minha realidade há quase um ano.
─ O que acha que vai acontecer a partir de agora? – Minhas palavras saíam quase vazias, mas eu já não suportava mais todo aquele silêncio.
─ O destino se encarregará de responder suas perguntas, a partir de agora...
O sol dava seu último suspiro do dia, estava se deitando novamente, e nós ainda estávamos ali.
Meu cabelo podia ser comparado a um emaranhado de fios de cobre, enquanto os fios do cabelo dele voltavam para seu lugar graciosamente toda vez que o vento os balançava. Belos fios negros que caíam até os ombros, contrastavam muito bem com a pele branca queimada pelo sol e os olhos verdes como folhas de uma árvore qualquer de um belo parque na primavera. Naquele fim de tarde, aqueles olhos estavam cansados, e talvez, preocupados.
─ Está na hora! – Ele se alongava, esticava os longos braços para frente e para trás, para cima e para baixo ─ Só me prometa uma coisa... – Ele abre a porta do carro e fita o chão.
Eu realmente queria que ele me olhasse nos olhos em momentos como aquele.
─ Desde que não seja algo impossível. – Sorrio mesmo ciente de que ele não vê meu sorriso.
─ Promete que não vai se meter em encrencas? – Ele volta o olhar para o horizonte mais uma vez.
Aquilo era algo impossível uma vez que ele não estivesse por perto. Alguém desastrada como eu entrava em encrencas quase que por obrigação. Mas se fosse para tranqüilizá-lo...
─ Eu prometo. – Mais uma vez sorrio. Tentando passar confiança o bastante para que acreditasse em mim.
─ Tudo bem, eu sei que isso é impossível, mas... Obrigado mesmo assim. – E então ele sorri. Era a primeira vez em quase um mês que eu o via sorrir. Aquilo valera à pena.
─ E se eu te pedi...
─ Sabe que é ainda menos provável! Sabe pra onde vou. – Ele se antecipa entrando no carro e batendo a porta.
Eu mal posso conter uma gargalhada enquanto o sigo fazendo o mesmo.
Minha família podia ser considerada uma linhagem de aberrações, e por algum motivo, eu fui a escolhida para herdar todas as diferenças.
Minha mãe, uma cientista que a cada dia descobria uma nova formula para explodir coisas, reconstruir coisas, etc.
Meu pai, um atirador procurado. Recompensa um milhão de dólares, vivo ou morto. Eu o via uma vez por semestre.
Meu irmão mais velho, um médico formado em quase todas as áreas da medicina, com exceção da pediatria e áreas do gênero. Ele nunca gostou de se responsabilizar por incapazes.
Meu irmão do meio com apenas 18 anos já era um dos hackers mais perigosos do país. Conseguira invadir o sistema do governo com apenas 14 anos de idade.
Minhas tias Luiza e Isa, por parte de mãe, gêmeas ninjas. Sim, ninjas. Com direito a roupa preta e tudo.
Meu tio Will, irmão mais novo do meu pai, um espião.
Minha avó, Heloíse, líder de uma tropa das forças armadas.
Meu avô morreu com quase 70 anos enquanto escalava o monte Everest. Parece que ele estava quase lá e quando percebeu, gritou um palavrão de felicidade que provocou uma avalanche.
E eu nem vou comentar do tio Sebastian que é um motorista muito sinistro. Ele dirige qualquer carro, consegue fazer manobras inacreditáveis; pilota aviões, motos e até poderia ser um pirata se tivesse um navio e uma tripulação.
No final das contas, eu tenho incríveis habilidades para qualquer coisa.
E é por isso que mamãe e papai resolveram me mandar pra uma escola “melhor”, de um nível “mais alto”, onde eu poderia realmente me “aprimorar”.
Eu não pretendia seguir carreira de cientista, médica, lutadora, militar, espiã, atiradora ou qualquer outra das que me apresentavam desde que eu era uma pirralha. Eu não tive aquela infância onde meninas brincam de boneca e querem ser bailarinas, ou a pré-adolescência onde damos o primeiro beijo e nos apaixonamos pela primeira vez. Acho que tenho meus próprios ideais, objetivos e ambições, e foi por isso que aceitei a transferência.
Agora eu estava deixando para trás minha única amiga, Becky e ele, o único garoto que podia me entender. Mas ele também estava seguindo sua vida. Conseguiu bolsa de estudos em Londres e aquilo seria bom. Becky sabia se virar, então eu não tinha com o que me preocupar.
─ Melly, mamãe já está no carro. Ela pediu pra te lembrar de pegar o chip. – Isaac passava por mim terminando de resolver um cubo mágico e indo direto para seu quarto. Ele estava encolhendo ou só estava muito curvado por causa do computador?
─ Ok. – Passo a mão rapidamente no bolso do casaco e tenho certeza que o chip estava ali ─ Vou sentir sua falta seu nerd maldito! – Intercepto a porta de Isaac antes que ele pudesse entrar no quarto.
─ Claro que vai. Quem vai invadir o computador dos seus professores pra você agora? – Ele dá a última volta no cubo e me estende o cubo ─ Fique com ele, e volte pra pedir ajuda pra resolver. – Ele sorri.
─ Você está péssimo! Ainda usando os adesivos? – Seus olhos inchados e sua fisionomia cansada não enganavam mais ninguém.
─ Virou vício – Ele levanta a franja me permitindo ver dois adesivos em sua testa.
─ Se cuida moleque. – Arranco um deles que é o suficiente para fazê-lo cambalear para o lado.
─ Você também. Acho que vou dormir... – Ele passa por mim se arrastando para dentro do quarto escuro e só ouço o barulho de seu corpo batendo com força no chão de madeira enquanto a porta bate.
─ Idiota.
Eu não tinha muito tempo. Tio Sebastian me levaria para Tóquio sem cobrar um centavo, se mamãe conseguisse chegar ao local marcado sem um centésimo de atraso. O que só seria possível saindo de casa no mínimo duas horas antes. Ao contrário de Sebastian, mamãe sempre foi um desastre com direção. Ela às vezes demorava horas para saber qual era o tubo de ensaio da direita e qual era o da esquerda, e já até causara explosões por confundir eles.
E lá estava ela, tremendo de frente para o volante do porsche prata que meu pai me dera de presente quando fiz 13 anos. Ele realmente acreditava que eu estava fazendo 18.
─ Que tal se compartilhássemos um segredo? - Sugiro jogando a mochila no banco traseiro do carro e esperando que ela passasse para o banco do carona.
─ Claro. Quando estivermos perto da garagem você me avisa para eu pegar o volante. Ou seu pai não vai gostar nem um pouco de ter de gastar mais de mil dólares com passagens de novo. – Ela passava desastradamente para o outro banco enquanto eu me acomodava atrás do volante.
─ Aperte o sinto mãe, aqui vou eu... – Giro a chave.
─ E você? – Ela aponta para meu sinto de segurança.
─ Vaso ruim, não quebra tão fácil. – Sorrio e afundo o pé.
Faltava apenas dez minutos quando chegamos a um quilômetro da garagem.
Mamãe conseguia, com certeza.
E lá fomos nós, devagar e com toda a calma do mundo.
Sebastian esticava os lábios num sorriso de orelha a orelha enquanto verificava o relógio de bolso.
─ Chegaram com bastante antecedência. – Ele resmungava entre dentes, já subindo no jatinho.
─ Wow! Onde você arrumou isso? – Analiso o jatinho preto por completo, tentando não deixar passar nenhum mínimo detalhe.
─ Isso importa mesmo? – Ele pergunta lançando um olhar intrigante enquanto acendia o cigarro.
Balanço a cabeça e dou de ombros. Realmente, não importava.
─ Prometo que na próxima eu arrumo um disco voador, mas por agora vamos nessa joça mesmo. – Ele bate na lataria com o punho cerrado e se ajeita no banco.
Mamãe observava de longe. Nunca fomos próximas, então ela não fazia questão de dramas normais em despedidas e eu também não. Afinal, o que eram 10 anos fora do país pra quem está acostumado a ver parentes passarem duas décadas sem dar as caras?
─ Até mais! – Aceno para mamãe.
─ Vou tentar não estragar seu carro! Eu prometo! – Ela acena e é a última coisa que vejo antes de me acomodar ao lado de Sebastian tomando o posto de co-piloto.
O cheiro de cigarro já me incomodava, mas eu estava indo para Tóquio, o que eu não aturaria?
Sebastian me mostrava cada comando, o que cada botão fazia e como se pilotava aquela joça como ele chamava. E assim que ele mostrou como levantar vôo, decolou.
─ Você está dirigindo ainda melhor que naquela época. – Ele resmunga sem tirar os olhos do céu escuro que se via à frente.
─ Pois é. Duzentos quilômetros por hora. Passei por três carros da polícia e na verdade acho que nem me viram. – Comento brincando com o cubo.
─ Sua mãe deve ter pirado. – Ele solta uma gargalhada.
─ Ela estava quase voando pela janela! – Gargalho junto com ele.
─ Isso aí é o capeta... – Ele aponta com a cabeça para o cubo.
Eu sempre admirei a incrível capacidade de Sebastian para prestar atenção em pequenos detalhes mesmo quando concentrado em outras coisas. E eu fiquei muito feliz quando percebi que também tinha herdado esse dom.
─ Nada. – Giro mais duas vezes e ele está completo novamente.
Sebastian não esboça reação alguma.
─ E como vai o namorado?
O pior ponto de Sebastian era sua necessidade por falar sobre algo. Algumas vezes chegava a irritar. Ele precisava estar sempre falando com alguém sobre algo diferente. E quando não tinha mais nada sobre o que falar, inventava histórias pra contar. Eu já ouvira várias vezes ele falar sozinho por que o celular descarregou na metade de uma ligação.
─ Não tenho namorado. – Respondo imediatamente.
─ Terminaram?
─ Eu nunca tive!
─ Não sabe o que está perdendo. Você já é uma adolescente, deveria curtir mais a vida. Ainda lembro quando tinha sua idade, eu... – E por aí ele foi. E foi assim que descobri que só com 15 anos ele teve mais de 20 namoradas.
(Tóquio, Japão)
Faltava pouco para meia noite.
Enquanto Sebastian aterrissava pude ver uma bela BMW preta esperando por nós. Não pude pensar em outra coisa se não “Ouvir ele não é tão mal quando sempre há uma surpresa esperando no fim de cada história!”.
─ Eu só tenho mais uma coisa a fazer aqui... E logo estará livre do velho chato aqui. – Ele começa, e só faz uma pausa para por a última mala no carro. Logo continua ─ Entre. Banco de trás. Você não vai dirigir essa belezinha na minha presença. – Ele sorri. Estava fora de questão uma mudança de idéia.
─ Tudo bem. – Concordo entrando no carro e batendo a porta. Então percebo que já há alguém atrás do volante.
─ Pra começar, isso aqui é um presente do seu pai... – Dizia Sebastian puxando uma maleta prateada.
Eu já podia imaginar o que era.
─ Oh meu Deus! – Exclamo quase berrando ao ver o rifle profissional em cuidadosamente guardado na maleta.
─ Isso é um presente da dona Heloíse... – Ele puxa das costas uma pistola calibre 32, já com um silenciador e tira do bolso da camisa uma caixa de munição.
─ Puxa! Puxa! Puxa vida! – Gaguejo de emoção. Eu nunca havia pegado em uma arma de verdade além das que eu usava para treinar. Também nunca imaginei ganhar tal presente de vovó.
─ Isso é do seu irmão. – De uma mochila que estava ao lado do motorista Sebastian tira um pequeno pacote. ─ Ele disse que é apenas para caso de ferimentos muito, muito graves. – Abro com cuidado e vejo uma seringa com uma agulha grossa e um líquido um pouco amarelado que eu não fazia idéia do que poderia ser. ─ Não vejo aquele moleque desde que ele se formou em medicina. – Sebastian resmunga.
─ Oh... – Lembro então dele falando algo sobre um “agita leão” que ele descobrira usando compostos contrários aos do “sossega leão”. Na hora eu até ri.
─ Isso é um presente da sua mãe, ela pediu pra entregar só agora. – Ele me entrega uma caixa com cartelas de comprimidos coloridos e um papel que parecia uma bula.
─ Não estou com dor de cabeça. – Brinco.
Ele apenas ri e passa para o próximo.
─ Isso é do Isaac. Claro... – Sebastian me passa um notebook. ─ Ele disse que aí tem todos os programas que precisa, e as instruções para usar todos eles.
─ Aquele grande nerd idiota! – Agarro o notebook como posso.
─ Isso é do desgraçado – Sebastian revira os olhos e me entrega um pacote. Só podia ser de Will ─ Ele disse que aí dentro têm escutas, câmeras microscópicas e tudo que você possa precisar usar para bancar a fofoqueira.
A raiva de Sebastian para com Will era notável. Eu nunca entenderia aquilo. Tudo bem que Will conseguira uma carreira muito mais importante que a de Sebastian que era “apenas um motorista”. Mas não acho que o fato de Will ser espião nas horas vagas fosse o motivo mor.
Apenas assinto com a cabeça.
─ Bem, achamos que talvez isso pudesse te trazer sorte...
Sebastian puxa do bolso um relógio. Mas não era o dele.
─ Isso era do seu avô. Não é um relógio comum. Olha... – Ele aperta duas vezes um botão ao lado do relógio e o relógio se torna uma bússola. Uma bússola diferente de qualquer outra que eu já pudesse ter visto. ─ É um aparelho inventado pelo seu avô. Além de ótimo hipnotizador é um medidor de verdade. Quanto mais próximo da área superior, maior as chances de ser verdade. – Ele joga o relógio em minhas mãos e só então percebo como é pesado.
Eu nem mesmo tinha palavras para agradecer.
─ Luiza e Isa te deixaram com uma das casas delas. Pode ficar tranqüila que não vai ter visitas de inimigos das gêmeas. Todos sabem que elas estão a caminho de Pequim e “vendeu” a casa. – Ele faz aspas no ar e logo em seguida me joga as chaves.
─ Ah que bom. Por que eu não tenho katanas... – Ironizo.
─ Ah, tem sim. Como são gêmeas resolveram dar dois presentes, sua katana está à sua espera na mesa de centro na sala.
Por aquela eu não esperava. Eu nem acreditava que no mesmo dia eu tinha ganhado um rifle, uma pistola, e uma katana!
─ Isso aqui é um presente meu. – Ele bate no banco do carro. ─ Você não terá seu porsche, mas terá uma BMW! Não pergunte como consegui. – Ele revira os olhos antes que eu pudesse abrir a boca.
─ Claro, de quem mais poderia ser? – Abraço Sebastian meio que por impulso ─ Meu piloto preferido! – Sussurro.
─ E isso aqui também é um presente meu. – Ele puxa do bolso uma carteira estufada. ─ Não conte a sua mãe, mas agora você tem licença para dirigir, tem uns 100 mil em mãos pra gastar como quiser, e mais 100 mil no banco, e você tem autorização para comprar bebidas alcoólicas... – Ele pisca e continua ─ Mas você não vai beber, vai?
─ Não tio! – Sorrio ─ Que isso? Eu sou uma garota direita, não faço esse tipo de coisa.
─ Boa menina. – Ele passa a mão pelo meu cabelo que está penteado como quase nunca. ─ Hideki, - Ele aponta com a cabeça para o motorista ─ Vai te mostrar os caminhos que precisará fazer, e vai te ensinar o que precisa saber por uma semana. Se esforce e não me decepcione. – Dizia Sebastian enquanto se levantava e passava meio desajeitado pela porta da BMW.
─ Tio... – Chamo me segurando para não puxá-lo pelo braço.
Atento, ele se volta para mim mais uma vez.
─ Que tipo de escola é essa pra onde estou indo? Preciso mesmo de tudo isso? – Pergunto já temendo o pior.
Mas ele apenas sorri e dá de ombros.
─ Só torça para seu jeito multifuncional não te render problemas. E tente se enturmar... – Ele bate com cuidado no teto do carro como um aviso que Hideki já podia seguir.
Vejo então ele acenando enquanto o carro pega velocidade, aquele jeito insano de me olhar ao falar da escola me provocou um calafrio, Sebastian não se excitava por pouca coisa, mas logo deixei de lado toda minha imaginação criativa e fértil para dar uma olhada no notebook de Isaac.
Ali realmente tinha tudo. Desde programas de distorção de voz, até decodificadores e todo tipo de vírus.
Passei algum tempo lendo as instruções e ouvindo Hideki dizer os nomes de cada rua e pontos de referencia como eu pedi. Era uma técnica para gravar o caminho sem precisar ligar toda a atenção àquilo.
─ Chegamos. – Hideki dizia a palavra que eu mais queria ouvir depois de uma madrugada inteira rodando sem parar a maior cidade de Japão.
─ Hmm... – Inspiro profundamente me esticando e dando uma olhadela no relógio. Já era cinco da manhã.
A casa era até grande. E era bonita. Ficava a vinte minutos da escola.
Foi só sentada no sofá, vendo Hideki por as malas pra dentro que percebo quem era ele.
─ Ei, Hideki...
Seus profundos olhos castanhos me lembram alguém muito distante.
─ Sim?
─ Não quer ficar para descansar um pouco? Deve ter alguma coisa pra comer na geladeira. Fique a vontade. – Tiro o tênis com o pé chutando-o para longe e vou passear pela casa à procura de meu quarto.
─ Obrigado. – Sua voz ecoa pela casa como se não fosse mais que um cômodo vazio.
Hideki tinha algo estranho. Algo que me fez pensar desde as cinco e meia até as sete.
Eu só estou imaginando...
De frente para a geladeira, um turbilhão de pensamentos rodava em minha mente. Coisas sobre o passado, o presente e o futuro. Informações, histórias, idéias, planos, eram tantas coisas que eu já nem conseguia lembrar o que iria pegar ali. A geladeira já estava aberta a mais de 10 minutos com certeza, eu poderia pegar um resfriado, além de ter de pagar muito na conta de luz...
Roupas. Eu precisava comprar roupas. Mas primeiro eu ainda precisava saber mais sobre as pessoas dali.
─ Pensando? – Hideki me observava da porta. Eu já o havia notado, não chegara a mais que um minuto.
─ É... – Resmungo.
─ Dizem que pensar de frente pra geladeira aberta engorda... – Ele se aproxima mais para a me ver lançar um olhar crítico.
─ E estão certos quando dizem que dizer isso a uma garota é a maneira mais fácil, rápida e eficaz de fazê-la te encarar e largar os pensamentos. – Ele sorri.
O rapaz não aparentava ter mais que 30 anos de idade. Era uma idade razoável, a idade perfeita para pessoas que gostam de curtir a vida. Mas ele não parecia ser uma dessas pessoas. Seu modo robótico de se mover, seu olhar vazio, suas roupas e seu jeito formal de falar o envelheciam 10 anos. Talvez fosse por aquele motivo que ele nunca acharia alguém e se consolaria, por pelo menos mais 10 anos, com vinho como vinha fazendo ha certo tempo.
─ Está me analisando senhorita? – Ele pergunta tombando levemente a cabeça para o lado.
─ Alguém já te disse que dirigir alcoolizado é crime? Pode causar acidentes, mortes e blá... – Resmungo pegando uma garrafa de suco amarelo. Laranja? Não, talvez maracujá.
Enquanto o descendente norte-coreano me encara mais sério que nunca, apenas confirmo o sabor do suco bebendo da garrafa por preguiça de pegar um copo.
─ Maracujá! – Sorrio oferecendo um gole ao rapaz que ainda me encarava.
─ Como sabe?
Seu corpo se enrijece e vejo-o cruzar os braços.
─ Qualquer um perceberia que sua voz estava diferente, seus olhos estavam vermelhos, você aparentava algum nervosismo e evitava a polícia. E então com o tempo você ficou menos agitado e mais sonolento, já se embolava mais com as palavras e até deixou um pouco o lado formal...
─ E isso te dá certeza de que eu estava... Embriagado?
─ Não, eu só deduzi. Sua reação me deu certeza. – Olho-o nos olhos tentando não rir de sua expressão ─ Tudo bem, todo mundo bebe mais que devia vez ou outra.
Vejo o corpo de Hideki cair pesado sobre a cadeira.
─ Quer remédio? – Eu não estava tão preocupada quanto pareci. Era só uma ressaca. Café amargo, banho frio e um comprimido resolveriam tudo em menos de uma hora.
─ Não precisa se preocupar. Já estive pior. - Ele sustenta a cabeça com a mão segurando o queixo e olhando para o ar.
─ Quando foi para o Brasil. – Suponho.
─ Está deduzindo? – Ele me olha com olhos arregalados mais uma vez, eu apenas dou mais um gole e balanço afirmativamente a cabeça.
─ Você é branco, mas algumas partes da sua pele estão mais puxadas para o pardo. Foi o sol, não foi? O que houve? Esqueceu o protetor solar?
─ Esquece... – Murmura.
─ Hoje eu tenho que ir pra escola?
Deixo a garrafa na bancada da pia e sigo para a sala.
─ Hoje sim. Depois que eu for embora... Pode até reprovar que eu não me importo.
─ Tudo bem, então esteja pronto em cinco minutos. – Passo pela sala direto para o quarto.
─ Cinco minutos? Duvido...
O sofá era confortável, eu podia deitar ali e dormir tranquilamente enquanto esperava Hideki terminar de se ajeitar. Embora fosse chato ouvi-lo reclamar o tempo todo que nunca tinha visto uma garota se arrumar tão rápido, eu estava até me sentindo confiante com mais essa habilidade.
Oito horas.
No fim, até mesmo o destino de nunca se atrasar eu herdei de Sebastian.
A poucos passos da entrada da escola meu celular vibra no bolso de minha calça. Era uma mensagem de Isaac.
“Boa sorte pirralha! Não passe muito devagar pela porta de entrada. Eles estão te esperando.”
Eu ainda fazia as contas pra saber que horas marcavam os relógios de Boston quando passei pela porta de vidro.
─ Mellinda! – Uma voz aguda gritava meu nome da rua. Eu não dou mais um passo e viro para tentar reconhecê-la.
Uma garota de baixa estatura, longos cabelos negros e olhos puxados; vinha correndo e sorrindo em minha direção. Porém, eu nunca havia visto aquela japonesa.
─ Ops! – Ela para há alguns metros de distância de mim, seu modo de sorrir muda. Então percebo o que está prestes a acontecer.
No chão, um X marcava minha posição. Espalhadas no teto estavam varias armas de tinta me miravam.
─ Ah merda! – Exclamo saindo da posição de alvo.
─ Considere isso como um “Seja Bem-Vinda!” – A garota solta uma gargalhada maliciosa.
Hideki apenas tapava o rosto com a mão e fazia que não.
Não importava pra onde eu fosse as armas estavam me seguindo, e o primeiro disparo foi dado.
─ Só uma novata como você não veria o X no chão. Então, tudo que tivemos que fazer foi... – Ele se aproximava, mas antes que pudesse terminar de explicar era tarde demais... Para ela.
Antes que ela pudesse perceber, enquanto criava mentalmente seu discursinho eu já havia ligado os pontos. Ninguém pisaria em um X marcado no chão, mas eu estava ocupada demais respondendo mensagens que eu não lia há dias, ao pisar no X, um sensor de movimentos colou na sola de meu tênis, permitindo assim que as armas me seguissem. Assim que percebi, evitando ficar parada em um só lugar, arranquei os tênis como de costume e os chutei na direção da japonesa. Automaticamente os disparos foram direcionados ao tênis e como existe a lei da gravidade...
─ Oh meu Deus! – A garota admirava o belo uniforme manchado de um vermelho que mais parecia sangue.
Pressiono a tecla enviar em meu celular e logo recebo uma nova mensagem de Isaac.
“Já foram desativadas. Vai calçar o tênis antes que alguém morra asfixiado!”
Sorrio andando em direção à porta enquanto guardo o celular na bolsa.
─ Não achou mesmo que ia me passar um trote tão barato não é? – Abaixo para pegar o par de tênis e examino a sola de cada um, percebendo que o senso estava no esquerdo, retiro-o e passo pela porta me aproximando da garota que ainda me amaldiçoava ─ Fica com isso... Ainda dá pra usar. – Colo o sensor em sua testa e volto para dentro, indo em direção ao balcão onde as recepcionistas tentavam não rir.
Dois garotos se contorciam em gargalhadas sentados próximos ao elevador.
Eu procurava a posição das câmeras por onde, com certeza, Isaac estava assistindo a tudo comendo sua pipoca de microondas.
─ Parece que dessa vez você se deu mal Guchi-chan. – Um dos rapazes se atreve.
─ Cale a boca idiota! Eu ainda sou eu caso você não tenha percebido. E eu – Ela faz uma pausa se inclinando para o garoto ─ Posso arruinar sua vida!
Deixo Hideki fazer o que devia ser feito na recepção e paro atrás da japonesa que agora me parecia alguém mais arrogante que antes.
─ Tipo eu fiz com a sua camisa... Né? – Sorrio sinicamente.
Os garotos apenas desviam os olhos para a esquerda enquanto a tal Guchi tem um ATP normal para sua idade e seu gênero. Ela se dirige ao elevador e vai parar em algum andar bem longe de mim.
─ Quem é ela a propósito? – Pergunto agora me voltando para os garotos.
─ Aiumi Yamaguchi. – A resposta não vem de nenhum dos dois. Vem de alguém atrás de mim. Alguém que com certeza chegara há pouco tempo ─ Espera... Já são quase oito e quinze não deviam estar em suas salas? – A voz não era de um adulto, então quem seria o aluno que poderia bancar um inspetor?
─ Já estávamos indo Yama-sensei. – Os dois levantam rapidamente e se dirigem ao elevador.
Yama... Guchi... Yamaguchi... Aiumi Yamaguchi. Guchi-chan, Yama-sensei... São irmãos? Eu me perguntava.
─ Agora você... Pode me acompanhar?
Viro-me e dou de cara com um garoto alto. Seu cabelo liso, fino e negro caía até pouco abaixo dos ombros, e seus olhos tão negros quanto o cabelo ajudava a contrastar com a pele pálida, mas não com o uniforme preto. Pelo que eu sabia da escola, ele era do último ano.
─ Claro. – Assinto com a cabeça ao ver Hideki acenar e sair.
─ Sou Shiro Yamaguchi. – Ele se apresenta.
─ Sou Mellinda McQueen. – Faço o mesmo.
─ Desculpe pela inconveniência de minha irmã. Papai me pediu para lhe acompanhar por algumas semanas até você se acostumar com o ritmo da escola. Espero que seja realmente tão especial quanto as informações dizem.
─ Seu pai?
─ Pierre Wolves.
─ Como assim você é...
─ Ele adotou a mim e a minha irmã. Mas isso já não te diz respeito. – Por mais que suas palavras não fossem as mais gentis, seu sorriso recompensa.
E assim seguimos por fora do prédio.
A novata – Cap. III
O dia mal tinha começado e lá estavam eles me enchendo o saco.
─ Você tinha que ver Yoru-kun! Ela veio... – Um deles fazia uma imitação barata ─ Depois fez assim... – E outro continuava ─ E aí “Baaang”! – Eles gritavam.
─ Yoru-kun você realmente perdeu! – Modoki repetia enquanto se esticava e se acomodava em sua cadeira.
─ Disseram que ela veio dos estados unidos. – Sara murmurava sem se voltar para trás.
─ Aposto que ela não dura um mês aqui. – Resmungou Risa olhando pela janela.
─ Eu se fosse a Risa-chan não me sentiria tão convencida! – Misaki Sorria radiante em sua forma mais infantil. Quem a via daquela forma jamais a conheceria em sua forma mais séria.
Foi quando os dois últimos idiotas chegaram à sala.
─ A Guchi-chan está uma fera! – Comentou Akihiro enquanto se acomodava em sua cadeira atrás de Modoki.
─ Nós vimos! – Modoki aponta para seu tablet.
─ Cara, é uma pena que aquela garota não seja da nossa turma... – Resmungou Kouji fazendo sua melhor cara de decepção.
─ Como sabe que não será da nossa sala? – Sara se intromete.
─ Yama-sensei pediu que ela o acompanhasse... Sabe o que isso significa não é?
Pela primeira vez arregalo os olhos.
─ Não. Não tem como. Ainda existe a possibilidade de ela entrar aqui. O que vai ser um azar se acontecer... – Pela primeira vez comento algo.
─ Por quê? – Akihiro questionava verificando algo na mochila.
─ Por que nessa sala só tem idiotas! – Reviro os olhos e me recuso a continuar participando da conversa. Apenas me desligo de todos pondo os fones de ouvido e me concentro na missão extracurricular que tenho de terminar antes do fim de semana.
Eu só precisava encontrar uma pessoa.
Peter Bottom.
Meu único motivo para capturá-lo era ganhar pontos. Pontos o suficiente para um novo teste de nivelamento.
Embora a professora de física estivesse explicando uma matéria realmente importante, Modoki não conseguia prestar atenção em outra coisa se não seus peitos, Risa e Misaki se entretinham em um chat pelo celular. Risa desenhava mangás e Akihiro e Kouji apenas sonhavam acordados.
Eu ainda me perguntava por que diabo eu tinha que ter me juntado a um grupo tão inútil. E por que exatamente eu tinha que estar bem no centro de todos eles?
Eu invejava aquele imbecil que estava bem a nossa frente. Ao lado de seu irmão gêmeo que só era diferente em personalidade.
Eles pareciam tão importantes. Sempre pegando as melhores missões, sempre ganhando mais pontos, eles podiam estar no último ano, mas só para parecerem mais dedicados decidiram não pular passo algum... Idiotas...
Eu estava observando-os quando alguém interrompeu a professora.
─ Daniel... Poderia vir aqui um minuto? – Era o Yama-sensei ─ Você também Danilo.
E lá iam os gêmeos. Claro, como sempre os gêmeos.
Em meu grupo uns encaravam os outros tentando imaginar que mérito eles estariam ganhando agora.
Yama-sensei jamais chamaria alguém à toa. E só de pensar em qual seria sua nova missão excitante eu já elevava o nível de inveja quase ao máximo.
A porta se abriu novamente, e ninguém mais prestava atenção na matéria, mas para a frustração geral os gêmeos voltaram sem uma mísera novidade.
Não pude conter um pequeno sorriso que custou a sair do rosto.
Eu não conseguia entender, como alguém como eu, um estudante integral que era residente em todas as classes e tinha um talento multifuncional nato, conseguia não chegar perto de gêmeos que só serviam como detetive e espião...
Isso me revoltava tanto... Eu mal conseguia pensar.
E quando consegui, só pude perceber todos voltados para mim com expressão de espanto. Ao menos, todos do meu grupo.
─ Que? – Sussurro para Kouji já que estava bem ao meu lado.
Ele apenas aponta com a cabeça para a porta.
─ Shiyoru? – Yama-sensei tomba a cabeça para o lado entrando pela metade na sala.
Naquele momento, mesmo sem conseguir pensar, meu corpo levanta e vai a sua direção. Então ouço a porta bater atrás de mim.
─ Tudo bem? – Yama-sensei pergunta.
─ Tudo. – Minha voz soa completamente diferente do normal. Talvez fosse apenas mais uma mudança.
─ Eu só queria lhe fazer uma proposta.
Ouvindo isso minha mente instantaneamente se enche de idéias e minha imaginação começa a trabalhar, mas me forço a parar.
─ Você é bom em muitas coisas... – Ele começa ─ Estava querendo um teste de nivelamento certo?
Assinto com a cabeça tentando não demonstrar quanta expectativa me causa ouvi-lo comentar sobre isso.
─ Então façamos o seguinte, aquela aluna é nova aqui. Chama-se Mellinda McQueen e veio de Boston, Estados Unidos da América. Ela também é boa em muitas coisas...
Desvio o olhar para uma garota que praticamente briga com uma máquina para comprar um refrigerante. E então me volta à mente o que os idiotas falavam sobre a aluna nova... Ela era da América não era?
─ E vai fazer um teste de nivelamento. – Yama continua ─ Pensei em passar sua atual missão para os gêmeos Daniel e Danilo para que assim você pudesse acompanhar a novata em sua primeira missão. Claro, se você aceitar... Isso te renderá pontos o suficiente para seu teste de nivelamento.
Eu não queria dar a resposta imediatamente, mas não consigo evitar.
─ Eu aceito. – Imagino que não devia ser tão difícil.
─ Tudo bem, então ligue e avise a seus pais que você passará um tempo fora de casa. Não precisa se preocupar, nós providenciaremos desde roupas até alimentação e transporte para você. Mellinda está em sua turma e a partir de hoje vocês só precisam assistir as aulas até a metade do dia. Suas demais aulas serão práticas, treinamentos. – Ele faz uma pausa para olhar a garota e volta o olhar para mim novamente ─ Espero que não decepcione, nem a mim, nem o meu pai. – Ele murmura.
Embora eu não entendesse direito, assinto com a cabeça.
─ Mellinda! – Yama a chamava. A garota voltou-se imediatamente, e com um sorriso no rosto, mostrou a latinha de refrigerante.
Ela vinha andando graciosamente em nossa direção, então percebo, aquela sem dúvidas era a tão falada novata que arruinara os planos de Aiumi.
Ela era bonita. Longos cabelos ruivos e algumas sardas bem fracas no rosto. Os olhos eram quase dourados e seu estilo era o de uma garota de personalidade forte. Porém era delicada. Diferente de Sara, Risa ou até mesmo Misaki, era difícil imaginá-la segurando uma pistola.
─ Oi! Você é o Shiyoru? – Sua voz forte e alta me assusta, uma vez que eu esperava uma voz doce e suave.
─ Sim. E você é Mellinda. – Digo encarando-a.
─ Não precisa ser tão formal. Eu já sei tudo sobre você, a pergunta foi por educação. – Ela pisca e leva a lata até a boca para tomar alguns goles.
─ Tudo bem, agora entrem! É aula de física, é uma matéria importante. – Yama abre a porta e nos empurra para dentro ─ E isso fica comigo. – Ele pega a lata da mão de Mellinda e se desculpa com a professora pelo incômodo.
Obviamente, assim que Mellinda deu o primeiro passo dentro da sala, me seguindo; Modoki, Akihiro e Kouji não conseguiram fazer outra coisa se não sorrir para mim como se estivessem tendo aquelas idéias estranhas de novo.
Risa não conseguiu conter o revirar de olhos e a boca retorcida.
Sara e Misaki apenas davam leves risinhos.
E eu ainda não entendia por que tudo aquilo. Era só uma novata, ou não?
Todos estavam no mesmo lugar de sempre, o parque interno. Sara e Misaki não vestiam mais o uniforme. Então lembro quando comentaram algo ontem a noite no chat sobre hoje completar o caso Ghost.
Modoki, Akihiro e Kouji brincavam de uma daquelas brincadeiras estúpidas de verdade ou conseqüência.
E Risa parecia estar lendo algo.
Mellinda e eu não tínhamos parado para conversar, mas ainda teríamos muito tempo. Então a deixando passar direto na direção de Sara e Misaki, fui me sentar ao lado de Risa.
Risa era o tipo de garota que se fazia de forte. Fazia-se de forte e sempre conseguia tudo que queria. Mas no fim, não conseguia o que mais precisava... Se livrar de si mesma. Encontrar a liberdade e poder errar era tudo que ela mais precisava, mas não aceitava que ninguém a dissesse a verdade.
Os olhos azuis, que herdara da mãe alemã, estavam sendo tapados pelo cabelo recém-pintado de preto.
Ela estava concentrada.
─ Qual o problema? – Quase sempre essa era a primeira pergunta de um longo interrogatório, afinal, não tinha como conversar com ela se não fosse fazendo perguntas que pudessem ser logicamente respondidas e cientificamente comprovadas.
─ Nenhum. Olha, achei. – Ela fazia um caminho com o dedo indicador em um mapa no seu celular.
─ O que é isso? – Pergunto com certa curiosidade.
─ A casa onde Brigite Shell está sendo mantida em cárcere privado. – Risa resmunga aumentando o zoom do mapa.
─ Essa é a missão que pegou?
Ela assente.
─ Espera... Isso é uma câmera? – Olho mais de perto o celular. As imagens vão ficando mais nítidas e só então percebo que aquilo não era um mapa.
─ Segredo de estado! Eu te arrumo alguma se precisar algum dia. – Por baixo de sua franja um sorriso sombrio surge no canto de sua boca.
─ Algumas vezes... Você me assusta. – Digo com um sorriso besta no rosto.
Ela gargalha e é o bastante para chamar a atenção de Mellinda, que nos olha de longe, mas logo volta aos meninos que parecem muito alegres por sinal.
─ O que o Shiro queria com você? – Ela finalmente deixa seus olhos encontrarem os meus. Se ela ao menos soubesse como eu me sentia com aquilo...
─ Ele resolveu me fazer de babá da novata. Isso vai me render pontos o suficiente para um teste de nivelamento e vou finalmente poder recuperar o tempo que perdi. – Minhas palavras saíam mais vazias que eu esperava.
─ Quando começam?
─ Hoje. – Relaxo os ombros.
─ E qual é o objetivo?
Levanto os olhos para o céu e percebo que o tempo estava nublado.
─ É uma surpresa. – Sorrio.
─ Pode falar, não vou...
─ Eu não sei. – Interrompo-a.
O silêncio reina entre nós, eu deveria estar acostumado, mas daquela vez estava me incomodando.
─ Ah! Muito bem! – Levanto me alongando ─ Eu estou de saída. – Dou uma olhada no relógio e realmente estava na hora de sair.
─ Vai pra onde? – Risa arregala os olhos, espantada com algo tão repentino.
─ Sei lá. – Vejo Mellinda vindo em minha direção.
─ Oi! - Ela nos cumprimenta.
─ Oi. – Sorrio.
─ Olá. – Risa parece seca de uma hora para a outra.
─ Vamos? – Mellinda se volta para mim, agora com uma feição mais séria.
─ Mellinda... O que exatamente vamos fazer? – Esta pergunta me rondara a mente por tanto tempo que nem sinto enquanto ela passa por minha garganta.
─ Sabe que eu não sei? – Ela segura o queixo como se estivesse pensando e logo puxa meu pulso e começa a andar ─ Tanto faz. Você pilota bem?
─ O que? – Engulo em seco ao lembrar a última vez.
─ Motos. – Ela resmunga.
Mais uma vez, engulo com dificuldade, mas ainda assim balanço afirmativamente a cabeça enquanto aceno para meu grupo de idiotas que eu já começava a achar melhor que pessoas mais competentes, pelo menos ao lado deles eu me sentia mais capaz...
Duas motos nos esperavam nos fundos da escola. E ao lado delas, para o meu maior espanto, Pierre.
Pierre era um dos professores mais respeitados da escola, afinal, era além de professor o diretor adjunto.
O diretor vivia viajando então ao ver o respeito e a confiança que Pierre inspirava, decidiu pô-lo como diretor adjunto para manter as coisas sob controle enquanto ele estivesse fora.
Pierre não recebia para treinar os alunos. Ele era professor dos cientistas. Era lá que ele trabalhava. Agora eu me perguntava por que tanto interesse na novata...
─ Quanto tempo coisa pequena! – Pierre abria os braços, e com certeza não era para mim.
─ Quanto tempo senhor mágico! – Embora Pierre estivesse com um largo sorriso esticado no rosto, Mellinda se mantinha séria e com um tom irônico.
─ Então é assim que você cumprimenta seu pai? – Ele resmunga revirando os olhos.
─ Meu pai está em algum lugar que não te diz respeito observando algum novo alvo, que, após morto me renderá novos presentes.
Mellinda segue para a moto e eu apenas faço o mesmo.
Então ela era filha de Pierre... Agora fazia um pouco mais de sentido.
─ O que temos que fazer? – Pergunto interrompendo a conversa.
─ Apenas seja você e siga o que você chama de instinto Tachibana-kun. – Respondeu Pierre.
─ Acha que pode me dar cobertura? – Mellinda pergunta enquanto põe o capacete com cuidado.
─ Morango ou chocolate? – Sorrio.
Descemos as rampas e saímos na rodovia principal.
─ Pra onde vamos agora? – Parados na saída da escola, olhamos de um lado para o outro.
Pierre entregara um GPS à Mellinda, mas segundo ela não parecia servir de muita ajuda. Seguindo para o ponto vermelho, fomos na direção de um dos inúmeros parques da região.
Não tínhamos a menor idéia do que seria o alvo. Seria a vítima? Ou o culpado de algo?
Só podíamos esperar que não precisássemos gastar balas.